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Cannabis: Formas e apresentações (Parte 2)

Embora fumar a cannabis e comê-la como ingrediente em certos pratos sejam suas formas de consumo mais comuns, há uma grande variedade de maneiras de a planta ser usada. Os usuários afirmam que cada método de consumo tem um efeito psicoativo diferente. Por exemplo, fumar maconha, segundo eles, teria um efeito mais relaxante, enquanto comê-la ou absorver o vapor por meio de um vaporizador tem um efeito mais intenso, "cerebral". Os três principais produtos derivados da cannabis são a erva (a maconha, isto é, as flores secas da planta), a resina (o haxixe) e o óleo de cannais.

PARA FUMAR

A forma mais comum de consumo da cannabis é a de flor seca da planta fêmea prensada para fumar. O "baseado", termo que designa um cigarro de maconha, é o meio mais usado.

KIEF

O kef, que em árabe significa "bem-estar" ou "prazer", é um pó obtido dos trico mas da cannabis, isto é, de bolsas de resinas das plantas que secretam substâncias destinadas, em geral, à proteção. Normalmente, os tricomas parecem pequenos pelos ou escamas nas folhas ou no caule de algumas plantas, como, por ex, a urtiga. Para se obter o kief, flores secas de cannabis são peneiradas. O kief possui concentração muito maior de psicoativos canabinoides, como o THC, do que as flores de cannabis das quais deriva. Normalmente, o kief é misturado com haxixe, mas também pode ser vaporizado ou fumado diretamente. No Marrocos, o termo "Kief" refere-se, igualmente, a uma mistura dos tricomas da cannabis com haxixe ou tabaco. Apesar da forte concentração de canabinoides nos tricomas, o tipo da planta dita a qualidade do produto final.

ÓLEO DE CANNABIS

Trata-se de uma matriz resinosa de canabinoides obtida por meio de extração por solvente da cannabis. É o mais potente entre os três produtos principais do gênero isto é, a erva, a resina e o óleo.
O teor do THC varia conforme a planta. O Relatório Mundial sobre Drogas de 2009 estabelece que o teor de THC do óleo "pode exceder 60%". Atualmente alguns laboratórios americanos, como o SC Labs em Santa Cruz, California, o Steephil Labs, em Berkeley, também na California, e o GreenStyle Consulting Solutions, testam produtos obtidos da cannabis e relatam teores que variam de 30 a 90%, com os níveis mais preponderantes entre 60% e 85%. O óleo pode ser fumado ou inalado por meio de vaporização.
A forma mais comum de se produzir o óleo de cannabis é passar butano líquido em um tubo cheio de flores de cannabis. A baixa temperatura do gás cristaliza as resinas da planta. Conforme o butano passa pelo tubo, a resina cristalizada fica aprisionada no líquido. O produto resultante é vertido em um recipiente de vidro, na saída do tubo. Como o butano tem baixa temperatura de evaporação, ele é convertido em vapor rapidamente, deixando apenas a resina cristalizada, que é, então purgada em uma câmara de vácuo. Tal procedimento, dependendo do tempo de exposição ao vácuo, altera a consistência do óleo, podendo produzir, por exemplo, cera. É possível usar outros solventes no lugar do butano, desde que sejam puros, isto é, sem aditivos, pois o resíduos podem causar danos à saúde.
Nos Estados Unidos, em estados que permitem o uso de cannabis para fins medicinais, alguns usuários mais afoitos, ansiosos por potencializar seu estoque, causaram explosões em suas casas tentando produzir o óleo de cannabis. Em Michigan, só em julho de 2013, foram relatadas suas explosões. O butano é altamente inflamável.

BHANG

O Bhang é muito popular em todo o subcontinente indiano, onde é consumido há centenas de anos. Trata-se de uma preparação das folhas e flores da cannabis fêmea, geralmente adicionada ao leite ou à coalhada. Há, ainda, o bhang goli (bola), cannabis fresca moída em água. Muito comum em toda a índia e o Nepal, não é considerada uma droga, mas indutor de sono e estimulador de apetite. Na medicina tradicional indiana, chamada de "aiuvédica", muitos remédios levam bhang em pó em suas receitas. O mesmo acontece na culinária: uma bebida muito popular em muitas partes do subcontinente é o bhang ki thandai", ou "sardai", preparada com amêndoas, especiarias, leite e açúcar, e servida gelada.
O bhang tem sido usado desde os tempos védicos e é parte integral da cultura hindu. Nos "ghats", as escadarias que descem aos rios na Índia, onde os hindus executam rituais, é muito frequente encontrar homens preparando bhang. Eles moem em pilões as flores e as folhas das cannabis fêmeas, até obterem uma pasta. Então, adicionam leite, "ghee" - a manteiga clarificada, ingrediente básico da culinária indiana - e especiarias. Esse produto pode ser usado para preparar uma bebida forte, inebriante, o "thandal", ou ser misturado com ghee e açúcar para fazer o "golee", uma espécie de bala de bannabis.

HAXIXE (CHARAS)

O haxixe, chamado de "charas" na índia, no Nepal, no Paquistão e no Afeganistão, é feito da resina da cannabis, encontrada nos tricomas da cannabis fêmea. Durante a colheita, os camponeses esfregam as plantas com as mãos e a resina acaba aderindo à pele. Depois, raspam a substância e fazem bolas de haxixe com elas. A pasta é conhecida como "creme de cannabis".
Essa forma de preparação da cannabis tem sido usada no subcontinente indiano com propósitos religiosos e medicinais há milhares de anos. Nos tempos do império britânico, o haxixe era vendido com o ópio, em lojas controladas pelo governo, seguindo, assim até os anos 1980. Ele continua a ser vendido em algumas partes do Tajastão.
O charas exerce importante papel na religião hindu, sendo usado, principalmente, pelos shaivs, uma seita hindu que adora a BShiva, a divindade que encerra o clico da criação, trazendo portanto, a destruição. Na verdade, muitos hindus veneram a cannabis como um dos aspectos do Senhor Shiva, uma vez que, entre seus atributos positivos, o deus também representa a transcedência ilimitada.
Embora o haxixe seja encontrado em todo o subcontinente, sua produção restringe-se a poucos lugares do norte do país, especialmente no Vale Parvati e ca Caxemira. No sul, também é produzido, porém, com qualidade significamente inferior. E como não poderia deixar de ser, com tanta abundância do produto, uma grande quantidade de haxixe indiano é contrabandeada para a Europa.
[...]

GARDAA

O gardaa é um tipo de haxixe feito, principalmente, nas áreas tribais do norte do Paquistão e no Afeganistão, usando-se plantas secas de cannabis. Como o haxixe produzido na Índia, é uma substância flexível, que pode ser moldada de diversas formas, normalmente em bolas. No entanto, ao contrário do contratipo indiano, o gardaa dissolve-se em partículas menores com o menor calor - mesmo o das mãos -, daí o nome: "gardaa", palavra urdu que significa "pó". De fato o produto de uma espressa poeira marrom. Há dois tipos de gaarda, um pó verde, levemente marrom. Devido ao estado resinoso, tanto o gaarda quanto o haxixe são, normalmente, misturados ao tabaco, enrolados em papel de cigarro e, em seguida, fumados.

DRAGÃO VERDE (TINTURA)

A tintira da cannabis, apelidada de "Dragão verde", devido, claro, à sua cor característica de clorofila, é usada para beber e também pode ser aplicada diretamente na pele. Para fabricá-la, deve-se extrair o THC e outros canabinoides contidos nas flores e folhas da cannabis fêmea por meio do álcool. Normalmente, seca-se a planta em um forno durante alguns minutos, para decarboxilar, antes do banho no álcool. A decarboxilação serve para potencializar o THC na preparação resultante. Nos EUA, há uma preparação farmacêutica comercializada sob o nome de Sativez, em spray, para uso oral.

ALIMENTOS À BASE DE CANNABIS

Uma das formas de consumo da cannabis é como ingrediente de diferentes pratos. Alguns pesquisadores afirmam que a ingestão da cannabis, desde que apropriadamente preparada, é mais eficiente para absorver os canabinoides do que fumando a planta. O efeito, porém, tende a ser mais lento, uma vez que a absorção do THC pelo trato digestivo demora mais.
Um dos ingredientes culinários à base da planta mais comuns é o óleo de cannabis. A "manteiga mágica", que contém cannabinoides, também chamada de "butterjuana" ou "cannabutter", também é muito usada na culinária psicodélica. E como as resinas da cannabis são solúveis em álcool, ruim ou licores infundidos com cannabis, elas também são usadas no preparo dos "pratos mágicos". Nesse caso, o Green Dragon também pode virar ingrediente. O Creme de Gras é um licor feito à base de cannabis que pode ser adicionado ao café ou a outras bebidas.
Uma das receitas mais famosas feitas com cannabis - muito procurada em certos cafés de Amsterdã - são os space cakes, também chamados de hash cakes. são muffins, brownies e cookies feitos com grandes quantidades de haxixe, normalmente meio grama da droga para cada grama dos produtos, de modo que quem os consome obtém efeito forte e de longa duração.
O maior benefício ao consumidor esses bolos é a isenção dos efeitos prejudiciais da fumaça no sistema respiratório. De acordo com os consumidores, o sabor dos confeitos não é muito diferente do de outros feitos com os ingredientes normais.

CHÁ DE CANNABIS

Alguns usuários preparam chá (na verdade, infusão) com as folhas da cannabis. Como o agente psicoativo primário da planta não é solúvel em água, esse método de consumi-la provoca pouco efeito psicoativo. Essa técnica vem sendo usada há milhares de anos como forma de usar a planta por conta de suas qualidades medicinais, em vez das alucinógenas.


CANNABIS E RELIGIÃO

A cannabis tem sido usada num contexto espiritual e religioso na Índia desde os tempos védicos, há mais de 3.500 anos. Os santos hindus são notórios por usar a planta para induzir estados espirituais e como auxiliar na meditação. Atualmente, a cannabis também tem sido usada pelos seguidores do movimento rastafari, que a consomem em seus ritos, seguindo eles, para potencializar a consciência.
O primeiro relato sobre o uso sagrado da cannabis na índia e no Nepal está no Atharva Veda, escrito entre 2000 e 1400 a.C. O texto menciona a cannabis como uma das "cinco plantas sagradas". O hinduísmo relaciona o uso da cannabis ao culto de Shiva, uma das três divindades dessa religião, tanto que a oferenda mais comum à divindade é o bhang - também consumido por aqueles que o ofertam. De acordo com os adeptos do chivaismo, o "elixir da vida", isto é, a cannabis, foi produzido quando o oceano foi criado pelos devas e pelos asuras (deuses e demônios hindus). Shiva, então, criou a cannabis do seu próprio corpo para purificar o elixir que viria a ser oceano. Assim, o consumo moderado do bhang, feito de acordo com os preceitos religiosos. limparia o devoto de seus pecados e evitaria uma vida futura de sofrimento. Por outro lado, tomar o bhang de modo irresponsável, com fins puramente recreativos e sem os ritos apropriados, é considerado pecado.
Na África, onde o consumo da cannabis faz parte da cultura local, além do uso medicinal, a planta também é usada de forma ritual. Nas aldeias, em cujos arredores exploradores europeus do século XIX relataram haver grandes traços de terra destinados ao cultivo de cannabis, as sociedades de fumantes da planta eram comuns. Elas serviam para reforçar laços de amizade e levaram à formação de cultos religiosos. Entre diversos povos, a tribo Baluka, do Congo, espabeleceu um culto de consumo de cannabis chamado de "riamba", no qual a planta era fumada em enormes cabaças. Os seguidores do culto, que chamavam a si mesmos de Bena Riamba, ou "filhos do cânhamo", deviam mostrar sua devoção fumando o máximo possível. Eles atribuiam poderes mágicos à cannabis e acreditavam que seu consumo combatia todos os males. Por isso mesmo, levavam-na consigo nas guerras e viagens. A cabaça usada para fumar a cannabis era para esses povos, um símbolo da paz, semelhante ao "cachimbo da paz" dos índios norte-americanos. Nenhum acordo de paz ou de comércio era selado sem ele.
Na China, onde a cannabis é usada por suas propriedades medicinais há mais de dois milênios, a planta ainda é usada em rituais xamânicos, praticados nas regiões centrais do país. [...] Ps sacerdotes taoístas, os quais estidavam alquimia em busca do elixir da eterna juventude, também faziam uso da cannabis, queimando-a, principalmente, em incensos "purificadores". [...]
Modernamente, os membros do movimento Rastafári usam a cannabis como parte do culto ao seu rei Haile Selassie I, da Etiópia, e para estimular a meditação. O movimento foi fundado na Jamaica em 1930 e afirma que a planta é a Árvore da Vida mencionada na Bíblia. [...] Eles acreditam que a planta tem o poder de levá-los para mais perto de Deus,a quem chamam de Jah. Para os rastas, a erva traz autocompreensão e permite entender Deus e o universo, além de tirar o mal do coração humano, purificando-o. Esfregar cinza de cannabis na pele é considerado um ato propício. Apesar disso, não é preciso, realmente, usar a canabis para ser um rastafári.
Também há, pelo menos, uma denominação cristã que considera a cannabis um sacramento, isto é, um rito sagrado de particular importância. Os membros do Ministério do THC veem a cannabis como capaz de trazer cura e iluminação, e sustentam que a planta era um dos ingredientes principais do óleo de ungir mencionado na Bíblia. Uma de suas missões é liberar a cannabis, envolvendo-se ativamente na discussão sobre o uso da planta na sociedade.

- FIM -

Pessoalmente, eu amo cannabis, porém não há nada na vida que não faça mal em excesso, até mesmo água em excesso não é bom, sou a favor da legalização em países já organizados e preparados para isso, espero um dia esse sonho virar como no Canadá, ou Amsterdã, ou como em alguns lugares dos Estados Unidos. É triste quando não és cultivada... 
Um dia vou morrer, afinal todos irão morrer, vão me enterrar, um fazendeiro muito louco vai me adubar e me transformar em um lindo pé de maconha. Só assim poderei saber que mesmo depois de morta continuarei fazendo sua cabeça! (Bob Marley).

"Tome um livro, leia-o e o plante em sua mente, ou então, Peça com fé um "pé de maconha"  pra você dividir com cidadania ou exibir na sua estante, no jardim da poesia. E depois imite nossos contemporâneos, quase democráticos, a fazer valor nosso direito de ver aquele "pé de maconha" no cardápio do brasileiro, lido, compreendido e legalizado, ou seja, livre e sem coisa, seja no calor ou seja na frescura" (literatura sativa).

Cannabis: Uma breve história (Parte 1)

Cannabis Queen by HeadTraumaPro
Do Himalaia para o mundo, a maconha disseminou-se pelo tempo, criando subculturas e polêmicas.
Entre as diversas plantas cultivadas para o consumo humano, estavam aquelas usadas medicinalmente ou para induzir estados alterados de consciência, buscadas pelos místicos. Essas espécies vegetais, principalmente as que, além de curar, levavam embriaguez, recebiam o nome genérico de "plantas de poder".
Há milênios, o uso de plantas de poder vem fazendo parte da experiência humana. Pouco mais de uma década atrás, foi descoberto uma geleira da Áustria o corpo preservado de um caçador paleolítico que teria vivido há mais de dez mil anos. A múmia, que teria vivido há mais de dez mil anos. Ficou conhecida como o "Homem de Gelo", trouxe informações importantes sobre a vida e a tecnologia daquela época. [...] revelou até mesmo o uso de cogumelos alucinógenos, encontrados numa bolsa que o caçador tinha prendido à cintura. Os cogumelos podem ter servido a um caráter médico, mas podem também ter sido usados para "sonhar", isto é, entrar no "mundo dos espíritos".
O uso de certas plantas, as chamadas Plantas Mestras, Plantas de Conhecimento, Plantas de Poder ou Plantas Sagradas, empregadas para acessar um estado diferenciado de consciência, é muito comum até hoje. Muitas dessas plantas classificadas como enteógenas, do grego entheos, isto é, que têm "Deus dentro", participaram e participam de cerimônias em todos os continentes - do coração da Amazônia aos jângales indianos. [...] 
Um dos vegetais que têm interagido com a humanidade, pelo menos, desde o advento da agricultura, é a Cannabis sativa, nome científico do cânhamo, ou da maconha. A planta era cultivada por conta das fibras, usadas para fazer cordas e tecidos, e pelas suas propriedades alucinógenas e farmacológicas.
As duas espécies mais exploradas da planta, a Cannabis sativa e a Cannabis indica, são originárias da Ásia Central e Meridional. Uma terceira espécie, a Cannabis ruderalis, é nativa da Rússia.
Da Índia, a maconha alcançou o Oriente Médio, onde era usada pelos sufis - o ramo místico do islamismo -. para atingir estados elevado e também para recreação. E, mais uma vez, a religião teve um papel importante na divulgação da droga. Como o islamismo proíbe o álcool, a cannabis foi imediatamente adotada como o principal alucinógeno pelos muçulmanos. Na verdade, foi lá, pela primeira vez, que o uso da maconha, em forma de haxixe, foi associado a atos hediondos, dando origem à palavra "assassino".

EUROPA E O USO POR ARTISTAS INTELECTUAIS


Na Europa, durante o iluminismo, grupos de artistas e intelectuais começaram a usar a maconha como alucinógeno. O rito maçom dos iluminatti, do qual o escritor alemão Goethe (1749 - 1832) era membro, fazia uso do haxixe. Ao longo do século XIX, a maconha continueu a ser a droga da vanguarda europeia.
Em 1845, o médico francês J. J. Moreau de Tours e os escritores Gérard de Nerval e Téophile Gautir fundaram o Clube dos Haxixins, cujas atividades giravam ao redor do haxixe. Artistas proeminentes participavam das reuniões do grupo. Charles Baudelaire, Alexandre Dumas, Eugene Delacroix e Victor Hugo confirmavam a maconha como o sucedâneo dos intelectuais. Baudelaire chegou mesmo a escrever uma obra célebre sobre, principalmente a cannabis, Paraísos Artificiais (veja aqui), Uma das formas mais comuns de os membros do Clube dos Haxixins consumirem a cannabis era por ingestão.
Mas no final do século XIX e início do XX, nos Estados Unidos, algo determinante veio a ocorrer: o Movimento de Temperança ganhava força política em todo o país. Esse movimento de massa ocorrido no final do século XIX nos Estados Unidos defendia a livre concorrência de culpava o álcool por todos os problemas sociais existentes. Seus participantes também se opunham ao uso de alucinógenos e propunham regulamentar seu consumo. Assim, os círculos conservadores americanos lideraram campanhas contra o comércio de todos os psicotrópicos, inclusive o álcool. Era o chamado Proibicionismo, que comaçava a acultar-se e que acabou conseguindo impor a Lei Seca, que proibia o consumo e a venda de bebidas alcoólicas em todos os Estados Unidos.
Na década de 1910, diversas substâncias alucinógenas, antes vendidas livremente em farmácias, foram proibidas dentro do território americano. Os países da Europa e das Américas acompanharam essa tendência. No final da década de 1930, a cocaína e a maconha já estavam proibidas em vários países do mundo. A venda da morfina passou a ser rigorosamente controlada. Nos EUA, o álcool foi pribido de 1920 a 1935.
A partir de então, a cannabis só era usada pelos imigrantes mexicanos pobres e negros. No entanto, na década de 1950, a maconha voltou a ser associada à ideia de vanguarda e de contra cultura. Durante o período pós-guerra, uma nova geração começava a questionar os valores do American Way of Life. Achavam que a sociedade americana falira, que seus ideais haviam sido corrompidos pelo cinismo e pela mentira. Eram poetas e escritores que caíam na estrada em busca de liberdade e de experiências verdadeiramente humanas. [...] era um meio de contestar e de libertar-se.
Favela by zissu
De acordo com o canalcienciascriminais: A política de “guerra às drogas” nada mais é do que uma [pseudo] emergência levantada pelos Estados, principalmente Latino-Americanos, para o fim de possibilitar uma atuação beligerante por parte de seus órgãos. Sem a justificativa de combate às drogas, o Estado perde seu fundamento demagógico de neutralização de comunidades periféricas e de criminalização daqueles que não se adéquam aos padrões impostos. O usuário de drogas simplesmente "não viola preceitos de coexistência, pois as substâncias que são consumidas pelo sujeito apenas afetam a sua própria existência," [...] "a criminalização das drogas e de seus usuários, nada mais é, do que um mecanismo de controle social."

NO BRASIL

Segundo Edward MacRae - doutor em Antropologia Social, professor adjunto da FFCH/UFBa, e Júlio Assis Simões - Doutor em Antropologia da Unicamp - e autores de diversos estudos sobre maconha, a "a cannabis parece ter sido originalmente introduzida no Brasil por africanos escravizados e durante longo tempo foi parte importante da cultura negra de grande parte do Norte e Nordeste". A própria origem da palavra indica isso: "maconha" vem do quimbundo ma'kaña, que significa "erva santa". Alguns historiadores chegam mesmo a afirmar que o uso da cannabis era tolerado pelos senhores, uma vez que mantinha os cativos calmos e alienados. Até o início do século XX, a maconha era considerada em vários países, inclusive no Brasil, um medicamento útil para várias doenças.
Em 1936, porém, a maconha foi proibida em todo o país. As campanhas que se seguiram, "de cunho declaradamente racista", de acordo com MacRae e Simões, rotulavam o costume de fumar cannabis como a "vingança do derrotado" e sustentavam que a substância era uma ameaça ao povo brasileiro. E como o costume era mais arraigado entre a população negra, "qualquer negro tornava-se suspeito de ser maconheiro ou traficante e, portanto, passível de ser revistado e detido" garante J. C. Adiala no seu estudo O problema da maconha no brasil: Ensaio sobre racismo e drogas (IUdeP do RJ, 1986).
Na década de 1970, houve uma nova onda de alarme, dessa vez associando o uso da cannabis aos jovens de classe média. Tratava-se de um grupo empenhado numa forte resistência cultural, levantando questões sobre temas relacionados à educação, ao emprego e à sexualidade. Assim,e m 1976, uma severa legislação sobre entorpecentes foi aprovada. Nessa época, as drogas ilícitas mais usadas eram a maconha e as anfetaminas. Essa lesgislação continuou em vigor até agosto de 2006, quando foi substituída pela atual.
Hoje, apesar dos riscos envolvidos na obtenção da maconha, seu uso recreativo é cada vez mais aceito entre alguns setores da classe média brasileira - mesmo por aqueles que não a consomem.

Documentário:

Cannabis by djstefanco

poison ivy hemp by BoggieNightBoy
Referências:
Curiosidades On Line Editora. Maconha – Cannabis: Erva Maldita?. On Line Editora. 97 p.

AVÔHAI: O início psicodélico de Zé Ramalho

José Ramalho Neto passou a maior parte  de sua adolescência e de onde saiu para o Rio de Janeiro em busca de reconhecimento, e conseguiu em 1978 através do lançamento de seu primeiro álbum. Melo (2015) cita que encantou-se ao ouvir pela primeira vez sua voz cantando uma letra meio incompreensível com uma simples harmonia, ao mesmo tempo rebuscada por instrumentos característicos. Segundo Florencia Garramuño, no livro "Frutos estranhos", funda uma poesia em que [...] sua expressão mínima, pode-se falar - e até quase constantemente - de emoções e sentidos, de sensações e sentimentos, ainda que sem sentimentalismo" (GARRAMUÑO, 2014, P. 62 apud DE SOUZA MELO, 2015).

Agora, pessoalmente falando,  certas músicas são inexplicáveis, de emoções e sentidos, por vezes nostálgico, remete o passado extremamente nostálgico, que retratam muitas vezes o interior da capital onde moravam para os mais velhos, e uma sensação de sonhos em um futuro aos mais novos... 
Músicas como por exemplo de Alceu Valenca  "La Belle de Jour girassol" e "Anunciação", ou de Geraldo Azevedo "Dona da minha cabeça"... Se você for olhar a playlist do blog, vai encontrar duas músicas citadas aqui.


Mas foi então "AVOHAI"... 
Nesse início da década de 70, Zé Ramalho saiu pelas cidades do interior pesquisando a música e à poesia nordestina, aquela que ouvia quando pequeno e voltou a escutar nos encontros com violeiros, emboladores, cantadores, aboiadores, cordelistas e repentistas. Aprofundou seus treinos em violas do sertão e virou especialista em escrever histórias de cordel, compor em forma de trova e misturar estilos. Após abandonar a faculdade de medicina, comungou com a psicodelia: LSD e chá de cogumelo serviram de combustível para a saída de sua primeira leva de músicas, entre elas “Avôhai”.
Segundo Zé Ramalho, “Avôhai” surgiu durante uma experiência lisérgica em que vozes sopraram os versos, entre eles “Avôhai, avô e pai”. Zé perdeu seu pai com menos de três anos e foi criado pelo avô, um homem forte do sertão da Paraíba, espelho do músico paraibano até sua morte, em 1976, dois anos antes do neto alçar fama nacional. 
Contando com tantas influências e tão diversificadas referências, em princípio, a construção elaborada por Zé Ramalho parece possuir uma identidade própria. 

Teles (2001) agora descreve:
"Ao recordar esse momento vivido da década de 70, numa entrevista ao jornalista pernambucano José Teles, o compositor Zé Ramalho afirmou que vivia-se um "intuito muito psicodélico" em tudo que se fazia, vivia-se uma "situação psicodélica" onde muitas destas expressões artísticas eram atravessadas pelo encontro destes jovens com suas primeiras experiências com LSD ou com cogumelos alucinógenos"

O Universo da Cantoria de Zé Ramalho

Devido à dimensão visionária e psicodélica de suas canções, o cantor paraibano acabou conseguindo um espaço neste selo, O disco estava repleto de composições suas que trazia na bagagem, desde suas vivências em João Pessoa e Recife, anos antes. Vivências que foram agenciadas nos territórios existenciais das experimentações so desbunde, como relembrou o próprio autor em uma entrevista:
Estas músicas já vinham sendo tocadas em suas apresentações na Paraíba, em Recife e também no eixo Rio-São Paulo, quando trabalho como música da banda de Alceu Valença. Antes dele, ganharam projeção no universo musical nacional os cearenses Ednardo, Fagner e Belchior, além dos compositores Geraldo Azevedo e do próprio Alceu Valença.

Psychedelic nature http://ynnat.tumblr.com

Um pouco mais sobre alucinógenos ...

A redescoberta do potencial extático da psilocibina, substância contida em certas espécies de cogumelos, e a recente invenção do ácido lisérgico, foram dois acontecimentos importantes que geraram deslocamentos tanto no campo das ciências quanto nos territórios existenciais da contracultura ao redor do mundo. A possibilidade de  uma expansão momentânea da consciência e da sensibilidade, os deslocamentos no campo da percepção, a vontade de ir a fundo dentro de si mesmo e sentir o mundo ao redor de outra forma, dentre outras coisas, estimularam a criação de novas relações culturais [...]. Também houveram as bad trips, as viagens sem volta, aqueles que literalmente piraram. [claro, na maioria a dose foi maior do que recomendado].
Eliade, que consideram a ingestão de cogumelos como uma prática cultural bastante antiga na história da humanidade e que teve fundamental importância para a construção dos territórios existenciais e das cosmogonias de uma série de povos nativos, que faziam uso de cogumelos à base de Psilocibina em suas experiências ligados ao xamanismo. O fato é que as tradições xamânicas foram perseguida pelo ideários cristão dos colonizadores europeus, que as consideravam "diabólicas" bem como outras relações que os povos ameríndios estabeleciam com a natureza. Mesmo com mais de 500 anos de colonialismo e europeização do continente que passou a se chamar Americano, as práticas xamânicas sobrevieram até os dias de hoje, junto as populações nativas que mantiveram dentre outras a tradição asteca do teonanacatl. Essa tradição de uso ritual de cogumelos alucinógenos, havia ficado conhecida entre os brancos, após a publicação de um frade do século XVI, que viveu grande parte de sua vida nas terras colonizadas e escreveu a obra "Historia General de las Cosas de Nueva Espana". Só partir dos anos 50 do século XX estas práticas passaram a ganhar um novo regime de inteligibidade para o pensamento ocidental, sobretudo através das pesquisas de Gordon e Valentina Wasson, que inauguram um amplo campo de debates e experiências em torno desta substância psicoativa. Neste sentido ver as obras: MCKENNA, Terence. O Retorno à cultura arcaica. Rio de Janeiro: Editorial Record, 1991. MCKENNA, Terence. O alimento dos deuses. Rio de Janeiro: Editora Record, 1995. ELIADE, Mircea. O xamanismo e as técnicas arcaicas do êxtase. São Paulo: Martins fontes, 1998.

Referências:
DE SOUZA MELO, Christina Fuscaldo. Baseada em Fatos Reais-Zé Ramalho, Eu e a Escrita (Auto) biográfica. XXXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Rio de Janeiro, RJ – 4 a 7/9/2015.
TELES, José. Do frevo ao Manguebeat. São Paulo: editora 34, 2001.

Ayahuasca: Um psicoativo em rituais indígenas


De acordo Lebate (2002):
Desde as duas últimas décadas do século XX, uma nova forma de consumo de alucinógenos foi difundida, da Amazônia para as grandes cidades brasileiras e, a partir do Brasil, para diversos países do mundo. Esse novo consumo caracterizou-se por um sentido religioso, através de diversos cultos sincréticos, [...].
A ayahuasca, também conhecida pelos nomes de Santo Daime e Vegetal, é uma bebida composta de duas plantas, o cipó (Banisteriopsis caapi) e a Rubiácea (Psychotria viridis), fervidas juntas durante muitas horas. As substâncias psicoativas nela presente são a DMT (da Psychotria) e a Harmina, Harmalina e Tetrahidroharmina (da Banisteriopsis). A DMT é inativa oralmente e, portanto, apenas sua mistura com um inibidor da monoaminaoxidase (IMAO) pode permitir que seu efeito psicoativo se manifeste. A descoberta dessa combinação sinérgica entre duas plantas é uma das realizações etnobotânicas mais significativas das culturas indígenas e um dos fatos que mais intrigou os cientistas. Já houve até mesmo tentativas de patenteamento, nos Estados Unidos, dessa fórmula do saber fitoquímico dos povos amazônicos - tais tentativas que foram impedidas pela reação das comunidades indígenas.

Ayahuasca
A expansão do uso dessa bebida amazônica psicoativa chamada Ayahuasca (termo de origem quíchua, significando “cipó ou liana das almas”) para além das populações indígenas e mestiças da Amazônia vem sendo considerada o fenômeno mais importante da cultura das drogas enteogênicas (substâncias psicoativas consideradas sagradas) na última década.

Martinez (2009) cita:
Ayahuasca é uma palavra de origem indígena (aya = pessoa morta, alma, espírito e waska = corda, liana, cipó ou vinho) que é traduzida do quíchua como cipó dos mortos, cipó dos espíritos, corda dos mortos, corda dos espíritos, liana das almas ou vinho dos mortos.
Os efeitos da bebida variam conforme o método de preparação, o contexto na qual a bebida é consumida, a quantidade ingerida, o número e o tipo de misturas. Alucinações visuais, diarréia e vômito  podem ser observados com o uso regular da ayahuasca e taquicardia e morte em casos de intoxicação.
O consumo da ayahuasca produz visões que variam segundo a atitude dos apreciadores desta bebida. Quando as visões são complexas e existe um alto grau de envolvimento dos consumidores da ayahuasca, eles podem interagir ativamente com suas visões e desempenhar atos associados a elas.

Do consumo ritual da ayahuasca nasceram diferentes cultos/religiões: o Santo Daime, a Barquinha e a União do Vegetal (UDV). O Santo Daime foi fundado por Raimundo Irineu Serra em 1930 nas regiões fronteiriças do Acre e de Rondônia com a Bolívia. Este culto  nasceu após a ingestão da ayahuasca por Raimundo Irineu, que teve uma visão de uma mulher que dizia ser a virgem da Conceição e que  transmitiria seus ensinamentos para que ele criasse uma doutrina.
Preparação
Enquanto na Europa as plantas alucinógenas foram usadas para práticas de feitiçaria e adivinhações, no Brasil o consumo de espécies alucinógenas usadas em rituais indígenas, deu origem ao desenvolvimento de diversos cultos e religiões. Pode-se observar que o consumo de plantas brasileiras levava a alucinações visuais e as solanáceas a alucinações sensitivas.
Embora plantas alucinógenas continuem sendo usadas em todo o mundo, inclusive em cultos religiosos, o uso de plantas vem dando lugar aos alcaloides sintéticos.

Há relatos de pessoas que já tomaram e contaram, um deles foi de Gustavo, no site Muita Viagem (2014):

[...] Eu estava sozinho em uma cabana sem energia elétrica, mas quando o Ayahuasca começou a fazer efeito alucinógeno, sabia que tinha mais sete seres no quarto, entre entidades boas e malvados. Mandei todo mundo tomar no cu sem distinção: podem ficar aí que eu nunca vi tantas cores. E tudo brilhava. [...] O passado, o presente e o futuro se misturam. [...] Fiquei de pé e quase caí, o desequilíbrio era muito grande.  Perdi a noção de proporção, do meu tamanho no mundo.  Meus olhos pediram para fechar, e quando fechei, uma explosão de cores muito, muito intensa. [...] Para ver completo clique aqui.

"De olhos fechados, as visões são bem assim..." (Muita viagem, 2014)

Fonte: quantumkool

Referências:
LABATE, Beatriz Caiuby; ARAÚJO, Wladimyr Sena. O uso ritual da ayahuasca. 2002.

MARTINEZ, Sabrina T.; ALMEIDA, Márcia R.; PINTO, Angelo C. Alucinógenos naturais: um voo da Europa Medieval ao Brasil. Quim. Nova, v. 32, n. 9, p. 2501-2507, 2009.

Enter The Void - Viagem Alucinante (2009)

Soudain Le Vide (Original)
Dirigido por:  Gaspar Noé
Duração: 161 minutos
País de Origem: França
Áudio: |  Legenda: Português

Sinopse: Oscar e Linda, dois irmãos que vivem atualmente em Tóquio. Ele sobrevive traficando drogas e ela como uma stripper em uma boate. Durante um ataque policial, Oscar é atingido por uma bala.(Isso logo no começo do filme) Enquanto está morrendo, seu espírito, fiel à promessa que Oscar fez à irmã de nunca desistir, se recusa a deixar o mundo dos vivos. Sua mente, então, viaja pela cidade e suas visões começam a ficar cada vez mais caóticas e apavorantes. Passado, presente e futuro se misturam em um redemoinho alucinante.

MAS, na minha opinião não foi um filme qualquer, nem clichê... Já assistir: Réquiem para um Sonho, Eu, Christiane F., Trainspotting: Sem Limites, Black Metal Veins, Sid & Nancy - O Amor Mata, Paraísos Artificiais (todos muito bons) mas Enter the Void é outra conversa, é um filme sensitivo ligado a reencarnações, e a própria vida humana. Assim como Requiem for a Dream, me deixou em estado fetal.
Acompanha o resumo do filme: