Caipora e Curupira: Intoxicados pelo retrocesso ambiental?

Caipora é uma índia anã, com cabelos vermelhos e orelhas pontiagudas. Existem versões em que seu corpo é todo vermelho e noutras, verde.
Aguilera (2007) lexicaliza dois verbetes: caapora e caipora. No primeiro, descreve o caapora como S. 2 [do tupi Kaa’pora], “o que há no mato”. Entre os índios o homem morador do mato, roceiro. V. caipira (1) Bras. Caipora (1). No segundo, já para caipora traz:  [do tupi Kaa’pora, morador do mato.] 1. Ente fantástico oriundo da mitologia tupi, representado segundo as regiões, ou como forma de mulher unípede que anda aos saltos, ou com uma criança de cabeça grandíssima, ou como caboclinho encantado, ou como um homem agigantado, montado num porco-do-mato ou com um pé só. 
Ela vive nua nas florestas e tem o poder de dominar e ressuscitar os animais. Seu intuito principal é defender o ecossistema e, portanto, faz armadilhas e confunde os caçadores. Além disso, ela tem o poder de controlar os animais e, por isso, os espanta quando sente que algo de mal pode acontecer.
Em certas versões, ela tem o pés voltados para trás igual ao Curupira. Por isso, em alguns locais do Brasil, ela é confundida com o Curupura.
Alguns estudiosos afirmam que a Caipora surgiu da lenda do Curupira. Ou seja, para eles ela é uma derivação dessa personagem folclórica.
Quanto a isso, podemos notar aspectos similares entre as duas figuras, como por exemplo, serem protetores da floresta. Ambos lutam pela preservação do ambiente e costumam assustar ou mesmo pregar peças nos caçadores, madeireiros, exploradores, etc.
Outra versão:
De acordo com (Foguel 2016) Caipora é uma entidade da mitologia tupi-guarani. É representada como um pequeno índio de pele escura, ágil, nu, que fuma um cachimbo e gosta de cachaça. Seu corpo é coberto de pelos. Vive montado numa espécie de porco-do-mato e carrega uma vara. Aparentado do Curupira, protege os animais da floresta. Os índios acreditavam que o Caipora temesse a claridade, por isso protegiam-se dele andando com tições acesos durante a noite.
No imaginário popular em diferentes regiões do País, a figura do Caipora está intimamente associada à vida da floresta. Ele é o guardião da vida animal. Apronta toda sorte de ciladas para o caçador, sobretudo aquele que abate animais além de suas necessidades. Afugenta as presas, espanca os cães farejadores, e desorienta o caçador simulando os ruídos dos animais da mata. Assobia, estala os galhos e assim dá falsas pistas fazendo com que ele se perca no meio do mato. Mas, de acordo com a crença popular, é sobretudo nas sextas-feiras, nos domingos e dias santos, que tudo se intensifica. Porém todavia, tem como driblá-lo. Caipora gosta de fumo, então diz que antes de sair tem que deixar fumo de corda no tronco de uma árvore e dizer "toma caipora, deixa eu ir embora". A boa sorte de um caçador é atribuída também aos presentes que ele oferece. Assim por sua vez, os homens encontram um meio de conseguir seduzir esse ente fantástico.

Note que ela pode ser representada por um homem ou uma mulher. Isso vai variar de acordo com a região em que a lenda é relatada.
No livro "Uma Viagem Através Do Folclore Brasileiro" (Foguel, 2016) descreve Curupira com traços semelhantes a Caipora. "anão de cabelos vermelhos e compridos, pés virados para trás [...] também se dizia que a pessoa deveria levar um rolo de fumo para entrar na mata caso encontrasse, Curupira assim como Anhanga ou Pai-do-Mato são protetores da fauna e da flora, também assobia e deixa pegadas, e como seus pés são virados para trás engana os exploradores da natureza.

Agora parou o blablabla...

Qual a diferença entre Caipora e Curupira?

"Os Curupiras têm a pele parda e cabelos vermelhos, que geralmente passam dos ombros. Costumam se adornar com pedras preciosas, linhas de tinta vermelhas e pretas e cipó, além de brincos e colares. Enquanto os Curupiras apenas passam linhas de tinta, fazendo desenhos como os índios, os Caiporas pintam a pele inteira de uma única cor, o verde-mato. Quem o vê pensa que sua pele é verde, mas a pele é parda também. Só que eles sempre vivem com a pele pintada, deixando apenas alguns traços brancos no rosto eventualmente. Para os Caiporas, é ofender a Sy deixar a pele parda, pois como são filhos da Mãe-Terra, devem pintar a pele da cor dela.
Os Curupiras são menos espirituais que os Caiporas, e menos sérios também. Os Caiporas são tão empenhados na adoração da Mãe-Natureza que dão a entender que são cruéis – e muitas vezes os são mesmo. Os Curupiras são mais de diálogo, os Caiporas são mais mortais e perigosos. Seus reinos em florestas são tão bem escondidos que nem mesmo um Curupira poderia encontrar com facilidade.
Os Caiporas tem a pele inteira pintada de verde-mato, mas têm cabelos vermelhos como os dos Curupiras. Geralmente utilizam o arco e flecha como armas de conflito, e são os melhores nisso" (folclorando, 2015).

Curiosidades

A Caipora também é uma personagem do programa televisivo “Castelo Rá-tim-bum”. Esse programa infantil passava nos anos 90 na TV Cultura. Nas telinhas, cada vez que alguém assobiava a Caipora aparecia e contava histórias indígenas (Toda Materia).
“Castelo Rá-tim-bum”
"Suas primeiras pesquisas coletavam principalmente os versos e lendas transmitidos oralmente pelos camponeses analfabetos e que pareciam representar uma herança antiquíssima. Gradativamente, a sua abrangência foi se ampliando, atingindo, para além da poesia oral, as melodias, danças, festas, costumes e crenças das populações rurais" (VILHENA, 2017).
A tradicionalidade, talvez a característica básica dos fatos folclóricos, é entendida hoje como uma continuidade de representações do passado, na qual os fatos novos se inserem sem provocar, contudo, uma descontinuidade com as antigas práticas. No âmbito desse entendimento, o folclore é universal e tradicional em seus temas e motivos – as invariantes –, e é regional, isto é, próprio de uma comunidade, de uma vila, de uma região, na medida que é atualizado na ocorrência de variantes e versões: O Bumba-meu-Boi, o mito do Caipora (Curupira), sobrevivendo de diferentes maneiras por todo Brasil, são exemplos dentre tantos outros. portadores de folclore não são mais exclusivamente analfabetos; muitos deles são responsáveis pela circulação, comercialização, divulgação e até mesmo da gravação da sua obra, como é o caso da cantoria, ou utilizam as novas tecnologias da comunicação para imprimir o seu folheto [...]  o folclore é dinâmico e evolui com as mudanças da sociedade. Não é sobrevivência, mas cultura viva. As nossas manifestações folclóricas são criações do povo brasileiro ou foram recriadas a partir de outras culturas e incorporadas às nossas tradições (ALCOFORADO, 2008).

As lendas do folclore brasileiro, são ou eram facilmente disseminadas por pessoas analfabetas, que de fato acreditam nelas! Entretanto, mais inteligentes que a ganância industrial, de empresas multinacionais, essas que passam por cima da regionalidade, da natureza e do próprio ecossistema.

O Curupira perdeu a força do mito

Artigo de Raimundo Nonato Brabo Alves 
O Curupira é uma entidade mitológica do folclore brasileiro. Tão antiga que o Padre José de Anchieta já o citava em 1560. No tempo de José de Anchieta eram apenas os caçadores e lenhadores. Hoje além deles são madeireiros, barrageiros, mineradores, garimpeiros, agronegociadores e principalmente legisladores que se o Curupira como entidade da floresta não conseguiu inspira-los, já perdeu ha muito seu poder de proteção contra os demais atores de destruição da floresta, tanto da Mata Atlântica quanto da Amazônia.
O Curupira perdeu feio a batalha no Congresso Nacional com o novo texto do Código Florestal aprovado em primeira instancia na Câmara e no Senado. O “novo código” cujas emendas ameaçam as APPs e as matas ciliares e anistiava os desmatadores que em desrespeito a lei não preservou suas reservas florestais, se constitui em retrocesso segundo a comunidade científica e de ecologistas, preocupados com os crescentes desequilíbrios ambientais.
Não tem mais poder o Curupira de impedir o avanço do agronegócio de monocultivos sobre as pequenas propriedades de agricultores familiares, que ao vendê-las a preços aviltantes aos grandes grupos empresarias, se tornam assalariados das mesmas empresas, comprometendo a cadeia produtiva de inúmeros cultivos como a o da mandioca, produto altamente ligado à cultura amazônida, provocando a instabilidade de oferta e de preço como no ano anterior, comprometendo a segurança alimentar da região.
O Curupira há muito não consegue mais confundir os garimpeiros e mineradores que com equipamentos mais sofisticados multiplicam por muitas vezes a velocidade de exploração dos minerais da Amazônia a ponto de suplantar a capacidade de degradação natural de seus rejeitos tóxicos, transferindo como herança para às futuras gerações, verdadeiros “cemitérios” de metais pesados nas proximidades da maior bacia hidrográfica do planeta.
Os mitos e lendas da Amazônia, tal como o Curupira, vem sendo triturados e liquefeitos pelas serras, turbinas, fornos e engrenagens que nos últimos 50 anos promovem o “desenvolvimento” da Amazônia. Quanto mais se fala em sustentabilidade a impressão que fica é a de que menos se pratica. Espero que haja tempo para uma reflexão da sociedade sobre o futuro que queremos, para que nossos mitos e lendas tenham algum significado para as futuras gerações.
Raimundo Nonato Brabo Alves é Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental
EcoDebate, 28/02/2014

Fotografias para conhecer!

Parque Ambiental Chico Mendes - Rio Branco, Acre, Brasil
Parque Ambiental Chico Mendes - Rio Branco, Acre, Brasil

Rio Branco, Acre, Brasil (O curupira (1996). PVA sobre zinco. Acervo: Fundação Garibaldi Brasil, Rio Branco-AC.)

Outras imagens...

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A Caipora tá lá na mata, ela tá dançando ela tá te vendo, seu moço aperta seu passo pois nas garras dela tem inté veneno, sinhô essa Caipora é brava não mexe com os bichos e suma logo, saia correndo; ela mora aqui faz tempo, toda essa natureza ela vai protegendo. . .
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Referências:
Imagem 1: https://harrypotter.fandom.com/wiki/Caipora
Imagem 2: Caipora by  rafanarchi
Imagem 3: https://www.facebook.com/folcollab/photos/a.111258986135925/168618837066606/?type=3&theater
Imagem 4: https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2018/11/lendas-59-quadrinistas-se-reunem-para-contar-o-folclore-brasileiro.html
Imagem 5: https://incrivel.club/admiracao-curiosidades/10-lendas-do-rico-folclore-brasileiro-como-voce-nunca-viu-671060/
Imagem 6: https://br.pinterest.com/pin/603200943820871731/
Toda Materia: https://www.todamateria.com.br/caipora/
Ecodebate: https://www.ecodebate.com.br/2014/02/28/o-curupira-perdeu-a-forca-do-mito-artigo-de-raimundo-nonato-brabo-alves/
Folclorando, 2015 (Acácio Souto): https://folclorando.wordpress.com/2015/01/14/qual-a-diferenca-entre-caipora-e-curupira/
ALCOFORADO, Doralice F. X. Do folclore à cultura popular. Boitatá – Revista do GT de Literatura Oral e Popular da ANPOLL, v. 3, 1980. 2008. Texto apresentado pela autora, enquanto presidente da Comissão Baiana de Folclore, em 03/09/2007, no Rotary
Club, Salvador. 2008. INSS 1980 - 4504.
FOGUEL, Israel. Uma Viagem Através Do Folclore Brasileiro. São Paulo: Clube de Autores, 2016.
AGUILERA, Vanderci de Andrade; DOS SANTOS, Ariane Cardoso. Crendices populares paranaenses: o caso do caipora. Boitata, v. 2, n. 3. 2007.
VILHENA, Luís Rodolfo da Paixão. Projeto e missão: o movimento folclórico brasileiro 1947-1964. 2017.
https://almaacreana.blogspot.com/2016/08/helio-melo-o-artista-da-floresta.html
https://www.flickr.com/photos/visitbrasil/23808145089/in/photostream/

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